EleiçõesVERIFICAÇÃO PARCIAL

Como Lula ganhou 10,4 milhões de votos entre os turnos

Em três semanas, o presidente reverteu déficit de 2,2 milhões, ampliou participação em todas as unidades da Federação e venceu Flávio Bolsonaro por 4,4 milhões; o comparecimento às urnas cresceu cerca de 3 milhões.

26 de out., 09:45 BR
Como Lula ganhou 10,4 milhões de votos entre os turnos
Foto: Lula gesticula enquanto discursa para apoiadores depois da vitória nas eleições - 26/10/2026 | Foto: Aman da Perobelli/Reuters

Em apenas três semanas, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) virou a disputa e venceu Flávio Bolsonaro (PL) por 4,4 milhões de votos, após sair do primeiro turno com desvantagem de 2,2 milhões. O presidente recebeu 10,4 milhões de votos adicionais entre os turnos e ampliou sua participação nos votos válidos nas 27 unidades da Federação, contrariando projeções que davam vantagem ao adversário.

Projeções e pesquisas

Durante a campanha, estudos e levantamentos indicavam dificuldades para a reeleição de Lula. Em 8 de outubro, pesquisadores do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) divulgaram um modelo que atribuía 19% de probabilidade de vitória a Lula, com base em pesquisa Datafolha que mostrava Flávio com 52% dos votos válidos contra 48% do presidente; o modelo projetava 52,2% para o senador e 47,8% para o petista. Na véspera da eleição, a pesquisa BTG/Nexus (24 de outubro) registrou 50,5% dos votos válidos para Flávio e 49,5% para Lula. No modelo de eleitor provável desse levantamento, a vantagem do senador crescia para 52,4% a 47,6%, com estimativa de abstenção em 21%.

O que aconteceu nas urnas

A votação efetiva contrariou parte dessas premissas. A abstenção caiu para cerca de 19,2%, e Lula venceu com 51,79% dos votos válidos. O aumento do comparecimento e a redistribuição de preferências entre os turnos foram fatores centrais para a virada, segundo os dados e análises divulgados durante o processo eleitoral.

A matemática da virada

Um estudo de Tiago Berriel e Mateus Della, do BTG Pactual, avaliou 27 combinações de transferência de votos das candidaturas eliminadas e movimentos de entrada e saída de eleitores entre os turnos; em nenhuma delas Lula ultrapassava Flávio. No cenário central do trabalho, os economistas consideraram a entrada de 5,5 milhões de eleitores ausentes no primeiro turno e a saída de 5 milhões que haviam votado anteriormente, resultando em aumento líquido de 500 mil eleitores; nesse cenário, Flávio venceria por cerca de 3,17 milhões de votos. Mesmo no cenário mais favorável a Lula, o senador terminaria à frente por aproximadamente 270 mil votos. Os autores também calcularam que uma virada sustentada exclusivamente pela mobilização de eleitores ausentes exigiria cerca de 12,6 milhões de comparecimentos adicionais, com Lula recebendo 70% desses votos e Flávio 30%, o que reduziria a abstenção para aproximadamente 13,1%.

Redistribuição de votos e números finais

A redistribuição dos votos das candidaturas eliminadas era um dos desafios mais relevantes. No primeiro turno, Flávio havia recebido 56,1 milhões de votos, contra 53,9 milhões de Lula; os demais candidatos somaram aproximadamente 9,3 milhões. Nacionalmente, os números finais mostram transformações importantes: segundo os dados citados, Lula passou de 53,8 milhões de votos para 64,2 milhões (crescimento de 10,3 milhões), enquanto Flávio foi de 56,1 milhões para 59,8 milhões (acréscimo de 3,7 milhões). A diferença entre os ganhos foi de 6,6 milhões, movimento necessário para converter a vantagem inicial do senador em vitória do presidente. A conta agrega três componentes: os votos dos candidatos eliminados, o aumento líquido do comparecimento e a redução dos votos brancos e nulos.

Esses números reúnem pesquisas, modelos e cálculos divulgados durante a campanha e ajudam a dimensionar por que a virada de Lula surpreendeu observadores que apontavam dificuldades para sua reeleição.

Foto: Aman da Perobelli/Reuters

Fonte: Revista Oeste