TecnologiaVERIFICAÇÃO PARCIAL

Explosão de imagens de abuso infantil geradas por IA alarma autoridades

IWF identificou mais de 6,3 mil imagens geradas por IA no primeiro semestre de 2026; organizações britânicas e brasileiras orientam revisão de privacidade e há avanços legais no Brasil

05 de out., 22:38 BR 0 leituras
Explosão de imagens de abuso infantil geradas por IA alarma autoridades
Foto: Reprodução

Aviso: esta matéria aborda violência sexual contra crianças e adolescentes. O texto não contém descrições gráficas. A quantidade de imagens de abuso sexual infantil criadas com inteligência artificial cresceu de forma acelerada em 2026: somente no primeiro semestre a Internet Watch Foundation (IWF) identificou mais de 6,3 mil imagens geradas por IA que se enquadravam na definição legal de material de abuso sexual infantil, número 40% maior que o registrado durante todo o ano de 2025.

O que mostram os dados

Os números mais recentes da IWF consideram imagens estáticas. Em 2025, a organização havia contabilizado 4.512 imagens; nos seis primeiros meses de 2026, o volume chegou a 6.310. Entre os casos nos quais foi possível registrar idade e gênero, meninas apareciam em 98% das imagens identificadas, e crianças entre sete e 13 anos representavam 79% do material analisado no período.

Há duas frentes de preocupação: ferramentas generativas podem produzir imagens inteiramente sintéticas ou modificar fotografias de crianças reais. Nesse segundo cenário, uma imagem comum publicada na internet pode servir como matéria-prima para criar conteúdo falso. O serviço Report Remove recebeu neste ano 420 relatos de menores que acreditavam ter fotos falsificadas ou manipuladas para parecer explícitas, volume que já superou os 397 registros de todo o ano passado, segundo o Guardian.

Recomendações das autoridades

A IWF e a National Crime Agency (NCA), do Reino Unido, orientam que pais e responsáveis verifiquem as configurações de privacidade nas redes sociais, revisem quem tem acesso às fotos dos filhos e considerem grupos restritos, como a opção de “amigos próximos”, para compartilhá-las. Também recomendam revisar imagens antigas e autorizações concedidas a escolas, clubes e outras instituições para publicar fotografias.

O avanço da IA complica o combate a esse material porque sistemas baseados em “hashes”, que identificam impressões digitais de arquivos conhecidos, conseguem bloquear cópias já registradas; uma imagem inédita gerada por IA não possui esse registro e precisa ser localizada e classificada antes de entrar nas bases de detecção.

Casos envolvendo grandes ferramentas de IA

O risco deixou de se limitar a ferramentas obscuras. No início de 2026, o Grok, IA da xAI integrada ao X (antigo Twitter), entrou em crise após ser usado para produzir imagens sexualizadas a partir de fotografias de pessoas reais; uma apuração da Reuters encontrou casos envolvendo mulheres e menores de idade. Na época, o próprio Grok atribuiu parte dos resultados envolvendo crianças a falhas em suas proteções, enquanto a xAI afirmou que trabalhava para reforçar os sistemas de segurança. Em março, três adolescentes entraram com uma ação contra a xAI nos Estados Unidos; o processo acusa o gerador do Grok de utilizar fotografias das jovens para criar e distribuir material sexualizado sem consentimento. O caso ainda tramita na Justiça.

O que o Brasil fez até agora

O Brasil passou a ter duas camadas recentes de legislação relacionadas ao tema. A primeira é o ECA Digital, Lei nº 15.211/2025, que entrou em vigor em 17 de março deste ano e criou obrigações de prevenção e mitigação de riscos para plataformas e outros serviços digitais acessados por crianças e adolescentes, com fiscalização da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). A regulamentação também criou, dentro da Polícia Federal, o Centro Nacional de Proteção à Criança e ao Adolescente (CNCA), projetado para receber e tratar denúncias de violência sexual encaminhadas por plataformas digitais diretamente às autoridades brasileiras.

Em agosto, a Lei nº 15.487/2026 avançou especificamente sobre o uso de IA: a norma atualizou o Estatuto da Criança e do Adolescente e passou a considerar material de violência sexual também aquele produzido, manipulado ou gerado digitalmente, inclusive quando a representação é inteiramente fictícia. A legislação prevê responsabilização de provedores envolvidos na criação, hospedagem, administração ou moderação desses ambientes e criou a chamada “ronda virtual”, mecanismo que permite às autoridades rastrear arquivos disponibilizados em espaços digitais públicos.

Foto: Reprodução

Fonte: CanalTech