Eleito em 2022 com 27.947 votos, Paulo Júnior construiu quase metade de sua votação dentro de São Cristóvão e terminou como o nono deputado estadual mais votado de Sergipe. Quatro anos depois, a reeleição apresenta um desafio diferente: preservar a extraordinária concentração de votos na Cidade Mãe sem continuar excessivamente dependente dela. Pesquisas recentes trazem um sinal favorável — seu nome começa a aparecer com força também na Grande Aracaju.
Quando as urnas foram fechadas em 2 de outubro de 2022, Paulo Júnior havia conseguido algo que a política de São Cristóvão não conseguia havia 16 anos: eleger novamente um representante diretamente ligado ao município para a Assembleia Legislativa de Sergipe.
Foram 27.947 votos, equivalentes a 2,30% dos votos válidos para deputado estadual em Sergipe. Paulo terminou como o nono mais votado entre os 24 eleitos e foi o primeiro colocado de sua federação.
Mas a eleição de Paulo possui um número ainda mais importante para compreender o Jogo do Poder de 2026:
12.968 votos vieram somente de São Cristóvão.
Isso significa que aproximadamente 46,4% de todos os votos que o elegeram saíram de uma única cidade.
Esse dado explica simultaneamente a principal força e o principal desafio de sua candidatura à reeleição.
Paulo possui uma base eleitoral extraordinariamente concentrada.
Agora precisa provar que conseguiu ampliá-la.
Uma eleição construída antes de 2022
A candidatura não apareceu do nada.
Paulo havia sido vereador de São Cristóvão por dois mandatos, eleito em 2012 e 2016, presidiu a Câmara Municipal, ocupou secretarias municipais e, em 2020, foi eleito vice-prefeito na chapa de Marcos Santana.
Quando disputou a Assembleia, portanto, carregava três tipos diferentes de capital político:
voto pessoal acumulado como vereador;
estrutura municipal construída durante os governos de Marcos;
e visibilidade institucional como vice-prefeito.
A combinação funcionou.
E funcionou de uma maneira que São Cristóvão não havia conseguido quatro anos antes.
De 2.501 para 12.968 votos
No Capítulo 2 desta série mostramos uma comparação que merece ser retomada.
Em 2018, o deputado estadual mais votado dentro de São Cristóvão havia recebido 2.501 votos.
Em 2022, Paulo recebeu 12.968.
Ou seja: a maior votação local para estadual foi multiplicada por mais de cinco em apenas uma eleição.
Não foi apenas uma vitória de Paulo.
Foi uma mudança no comportamento eleitoral da cidade.
São Cristóvão deixou de distribuir seu voto estadual majoritariamente entre diversos candidatos de fora e passou a concentrar uma parcela enorme em um candidato identificado diretamente com o município.
Essa capacidade de concentração é provavelmente o maior ativo eleitoral do grupo de Marcos Santana em 2026.
São Cristóvão praticamente construiu metade do mandato
A matemática ajuda a dimensionar isso.
Dos 27.947 votos recebidos por Paulo:
12.968 vieram de São Cristóvão.
Os outros 14.979 vieram dos demais 74 municípios sergipanos.
Portanto, a soma de todo o restante de Sergipe superou São Cristóvão em apenas 2.011 votos.
Essa é uma dependência eleitoral incomum.
Mas existe uma diferença fundamental entre dependência e isolamento.
Paulo recebeu votos nos 75 municípios sergipanos. Ou seja, embora sua base estivesse fortemente concentrada na Cidade Mãe, sua candidatura já possuía presença estadual.
A pergunta de 2026 é:
Essa presença virou base eleitoral permanente?
O problema de simplesmente repetir 2022
Seria tentador imaginar que basta Paulo repetir os 27.947 votos para permanecer na Assembleia.
Não é assim.
Deputados estaduais são eleitos pelo sistema proporcional.
Além da votação individual, importa o desempenho do partido ou federação e a distribuição das vagas.
Em 2022, Paulo ficou numa posição confortável em termos individuais: foi o nono mais votado do estado. Os 24 eleitos tiveram votações que variaram de 45.314 votos, de Cristiano Cavalcante, a 14.990, de Neto Batalha.
Paulo ficou com 27.947.
Portanto, seu desempenho pessoal foi forte.
Mas quatro anos mudam partidos, federações, candidaturas, estruturas municipais e concorrentes.
A meta racional de uma candidatura à reeleição não deveria ser simplesmente repetir 27 mil.
Deveria ser ampliar a margem de segurança.
E existe uma maneira clara de fazer isso
Paulo não precisa necessariamente crescer muito mais dentro de São Cristóvão.
Repetir algo próximo aos 12.968 votos locais de 2022 já representaria uma demonstração impressionante de fidelidade eleitoral.
O espaço mais importante para crescimento está fora.
Imagine apenas como exercício — não como projeção — que Paulo mantivesse aproximadamente 13 mil votos em São Cristóvão e elevasse os votos externos de cerca de 15 mil para 20 mil.
Chegaria à casa dos 33 mil votos.
É demonstrar a estratégia:
São Cristóvão precisa continuar sendo a âncora, mas não pode continuar respondendo por quase metade da candidatura.
Aracaju e a região metropolitana são fundamentais
É aqui que aparece uma atualização importante no cenário.
Uma pesquisa do Instituto França divulgada em 25 de agosto, registrada no TSE sob o número SE-04226/2026, colocou Paulo Júnior na liderança das citações espontâneas para deputado estadual na Grande Aracaju. O levantamento possuía margem de erro de 3,5 pontos percentuais.
Pesquisa espontânea precisa ser interpretada com cautela, especialmente para cargos proporcionais, onde grande parte do eleitorado ainda não definiu candidato.
Mas politicamente o dado interessa por uma razão específica.
Se Paulo está aparecendo espontaneamente fora de São Cristóvão justamente na região metropolitana, pode estar acontecendo aquilo que sua candidatura mais precisa:
A expansão da marca eleitoral para além da Cidade Mãe.
Outro levantamento, do Instituto CTAS, realizado entre 21 e 24 de julho com 1.224 eleitores e registrado sob o número SE-01952/2026, já colocava Paulo entre os dez nomes mais lembrados para a Assembleia.
E agora surgiu um dado ainda mais recente.
Nova pesquisa reforça o sinal de competitividade
Levantamento do Instituto W1 divulgado em 10 de setembro e repercutido no dia 11 voltou a colocar Paulo entre os nomes mais citados espontaneamente para deputado estadual.
A pesquisa ouviu 1.000 eleitores, entre 26 e 29 de agosto, tem margem de erro de três pontos percentuais, confiança de 95% e registro SE-06107/2026.
É importante não transformar esses levantamentos em previsão de cadeira.
Pesquisa proporcional possui enorme dispersão e muitos indecisos.
Mas três sinais consecutivos — presença entre os mais lembrados, desempenho na Grande Aracaju e nova aparição entre os primeiros citados — indicam que Paulo chega à reta final competitivo, e não restrito exclusivamente ao eleitorado são-cristovense.
Essa é a principal mudança objetiva a registrar neste capítulo.
O mandato agora entra na campanha
Em 2022, Paulo podia apresentar principalmente sua trajetória municipal.
Em 2026, precisa defender quatro anos de mandato.
Isso muda completamente a natureza da campanha.
O eleitor agora pode perguntar:
O que São Cristóvão ganhou com o deputado que elegeu?
Há números verificáveis.
O Portal da Transparência da Prefeitura registra, por exemplo, uma emenda de R$ 900 mil destinada a equipamentos permanentes para a saúde municipal. Até a consulta realizada para este capítulo, o sistema apontava R$ 673.735,57 executados, equivalentes a 74,9% do valor.
A mesma base registra uma emenda de R$ 400.204 para aquisição de cestas de alimentos do programa Tá na Mesa, com R$ 256.387,38 executados, ou 64,1%.
Há ainda uma emenda de R$ 170 mil para saúde bucal, cadastrada em julho. No momento da consulta, o Portal da Transparência registrava 0% de execução financeira.
Essa distinção é importante.
Uma das propostas desta série é justamente evitar colocar na mesma conta:
recurso anunciado;
recurso destinado;
recurso empenhado;
recurso pago;
e recurso efetivamente executado.
São etapas diferentes.
Infraestrutura também entrou na conta
Em 2024, três emendas de Paulo, somando mais de R$ 700 mil, foram contratualizadas para intervenções de infraestrutura em São Cristóvão.
Entre os destinos estavam a requalificação da praça de eventos de Rita Cacete, a praça da entrada do Eduardo Gomes e pavimentações.
Esse tipo de investimento possui uma característica eleitoral poderosa:
É territorial.
Uma obra numa praça, numa rua ou numa comunidade específica pode ser diretamente percebida por moradores daquele local.
Por isso, quando abrirmos os resultados de 2026 por território, será interessante verificar se áreas beneficiadas por emendas apresentam comportamento eleitoral diferente.
Não para presumir troca de obra por voto — isso seria uma conclusão indevida —, mas para observar se presença institucional e reconhecimento eleitoral caminham juntos.
O mandato também buscou diversificar a atuação
Paulo passou pelo papel de líder da oposição na Assembleia em 2025 e tem apresentado pautas que extrapolam São Cristóvão.
Em 2026, por exemplo, defendeu revisão da cláusula de barreira no concurso estadual da Educação, cujo edital previa 1.150 vagas, mas poderia limitar o prosseguimento de candidatos por causa da regra questionada.
Também apresentou projeto para inserir Forró, Xote, Xaxado e Baião como temas transversais no currículo estadual.
Independentemente da avaliação política sobre cada proposta, existe uma lógica eleitoral clara:
para crescer fora de São Cristóvão, o mandato precisa falar sobre Sergipe.
Um parlamentar excessivamente municipalizado pode conservar sua base.
Um parlamentar estadualizado pode ampliar a votação.
Mas São Cristóvão continuará sendo o coração da candidatura
Nenhum sinal de expansão significa que Paulo possa abrir mão da cidade.
Pelo contrário.
Se 12.968 votos locais foram responsáveis por 46,4% da eleição anterior, uma queda significativa nesse número criaria uma necessidade muito maior de compensação externa.
Por isso, a votação de Paulo dentro de São Cristóvão será um dos melhores indicadores da força atual do grupo liderado por Marcos Santana.
Há ainda uma vantagem estratégica.
Paulo disputa deputado estadual.
Marcos disputa deputado federal.
Portanto, os dois podem ocupar a mesma urna do mesmo eleitor.
A campanha pode pedir uma dobradinha sem conflito direto entre as candidaturas.
Isso diferencia Paulo de Marcos e Gedalva, que disputam o mesmo cargo federal e concorrem diretamente pelo voto.
Uma dobradinha também será um teste de transferência
Se Paulo repetir uma votação próxima de 13 mil em São Cristóvão e Marcos apresentar votação semelhante para federal, o grupo poderá interpretar o resultado como forte capacidade de transferência e organização.
Mas imagine outro cenário:
Paulo mantém 13 mil e Marcos fica muito abaixo.
A leitura seria completamente diferente.
Indicaria que uma parcela do eleitorado vota em Paulo independentemente de Marcos.
O inverso também poderia acontecer.
Por isso, comparar Paulo × Marcos nas mesmas regiões e locais de votação será uma das análises mais interessantes depois da eleição.
Poderemos descobrir quanto os dois eleitorados realmente se sobrepõem.
Paulo também funciona como proteção para o grupo
Existe uma diferença política importante entre sua candidatura e a de Marcos.
Marcos está tentando conquistar um mandato que ainda não possui.
Paulo está tentando preservar um mandato existente.
Para o grupo governista municipal, portanto, a eleição estadual funciona também como uma espécie de proteção institucional.
Mesmo que Marcos não consiga chegar à Câmara Federal, a reeleição de Paulo manteria São Cristóvão com um representante diretamente vinculado ao grupo na Assembleia.
Se os dois forem eleitos, a estrutura se amplia:
Júlio Nascimento — Prefeitura.
Paulo Júnior — Assembleia Legislativa.
Marcos Santana — Câmara dos Deputados.
Seria a configuração de maior força institucional já alcançada pelo agrupamento.
E mudaria completamente o ponto de partida para 2028.
O que São Cristóvão deve cobrar de Paulo
Justamente porque já existe mandato, a cobrança pode ser mais objetiva do que para um candidato estreante.
Não basta perguntar o que pretende fazer.
É possível perguntar:
Quanto São Cristóvão recebeu?
Quanto foi executado?
Quais obras foram concluídas?
Quais emendas ainda não saíram do papel?
Quanto foi destinado para outros municípios?
Que leis tiveram efeito concreto?
Qual foi a atuação na fiscalização do Governo?
E, principalmente:
Se reeleito, quais serão as três prioridades para São Cristóvão entre 2027 e 2030?
Essa deveria ser a régua para qualquer parlamentar que peça novamente o voto da cidade.
A grande pergunta mudou
Em 2022, a pergunta era:
Paulo Júnior consegue se eleger deputado estadual?
A resposta veio com 27.947 votos.
Em 2026, a pergunta é mais exigente:
Paulo Júnior conseguiu transformar uma eleição fortemente dependente de São Cristóvão em uma base política verdadeiramente estadual?
Os primeiros sinais das pesquisas sugerem que pode ter avançado nessa direção.
Mas pesquisa não distribui cadeira.
A resposta definitiva estará nas urnas.
E haverá dois números especialmente importantes na noite de 4 de outubro:
Quantos votos Paulo terá em São Cristóvão;
E quantos terá fora dela.
Se mantiver sua força local e aumentar significativamente a segunda parcela, terá realizado exatamente o movimento necessário para tornar sua candidatura menos vulnerável.
Se continuar dependendo de quase metade dos votos da Cidade Mãe, poderá até se reeleger — mas permanecerá eleitoralmente muito ligado a um único território.
Essa diferença será fundamental para medir não apenas o tamanho de Paulo Júnior em 2026.
Será fundamental para medir até onde São Cristóvão conseguiu transformar seus votos em influência política estadual.
No próximo capítulo — “Marcos Santana diante de sua eleição mais difícil” — O Arroto vai analisar por que os 25.872 votos que ajudaram o grupo a manter a Prefeitura em 2024 não podem ser simplesmente transferidos para uma candidatura federal, quanto pesa o precedente das eleições anteriores e por que o verdadeiro desafio de Marcos começa justamente quando termina o território de São Cristóvão.

