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Temporada das jubartes termina no Brasil com menos filhotes

Instituto Baleia Jubarte registrou proporção de nascimentos abaixo da média histórica, em um cenário associado à possível escassez de krill na Antártida.

02 de nov., 11:05 BR
Temporada das jubartes termina no Brasil com menos filhotes
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil — arquivo (19/08/2026)

A temporada das baleias-jubarte no Brasil terminou com menos filhotes neste ano, segundo dados do Instituto Baleia Jubarte. A principal hipótese para a queda nos nascimentos é que o aquecimento global esteja afetando a disponibilidade de krill na Antártida, alimento quase exclusivo da espécie.

Até setembro, a proporção de filhotes entre as jubartes avistadas foi de 3,35%, abaixo da média histórica de 9,98%, registrada desde 2014. No ano passado, a taxa bruta de natalidade ficou em 10,7%, e o recorde recente foi de 16,69% em 2024.

Menos alimento, menos reprodução

O diretor de pesquisas do instituto, Milton Marcondes, afirma que mudanças climáticas podem estar influenciando a oferta de krill. Segundo ele, baleias que se alimentam mal tendem a ter menor fertilidade quando voltam para acasalar, além de aumentar o risco de perda do filhote durante a gestação.

“Baleias que não se alimentam direito, quando vêm acasalar, não têm tanta fertilidade, ou a fêmea em gestação corre o risco de perder o filhote”, acrescenta Marcondes.

As jubartes não costumam se alimentar durante a viagem de quase 4 mil quilômetros, por isso precisam acumular gordura antes de deixar a Antártida e seguir para o arquipélago dos Abrolhos, no sul da Bahia. Isso vale especialmente para as fêmeas gestantes, que também precisam sustentar a amamentação.

Os números de natalidade considerados pelo instituto vêm do monitoramento diário feito por pesquisadores a bordo de uma barcaça que transporta celulose entre Belmonte, na Bahia, e Barra do Riacho, no Espírito Santo. Marcondes diz que esse acompanhamento é mais confiável para estatísticas anuais porque ocorre diariamente, no mesmo período e pelo mesmo trajeto.

Além disso, o instituto contabilizou 431 baleias em 11 cruzeiros científicos ao arquipélago dos Abrolhos, sendo 42 filhotes. Segundo o pesquisador, essa proporção também ficou abaixo do esperado.

O levantamento nacional por sobrevoo, que percorre o litoral de São Paulo ao Rio Grande do Norte, ainda está em andamento e deve indicar menos indivíduos e menos filhotes. O último censo desse tipo, feito em 2022, estimou um recorde de 34,5 mil baleias jubarte no país.

Marcondes lembra que oscilações na população são normais, mas ressalta a necessidade de entender o que vem afetando a reprodução. Ele cita situações semelhantes fora do Brasil, incluindo jubartes do Pacífico, da costa do Equador, e também da costa oeste e da costa leste da Austrália.

Temporada mais curta e encalhes fora do padrão

A redução dos nascimentos também antecipou o fim da temporada neste ano. Em condições normais, as jubartes começam a aparecer no Brasil em junho, têm pico entre julho e outubro e deixam a costa até novembro.

“As baleias que vieram acasalar, acasalaram e foram embora. Quem segura a temporada até mais tarde são os filhotes, porque a mãe tem que esperar ele crescer, desenvolver a musculatura e uma camada de gordura que permita a ele fazer a migração até as áreas de alimentação e proteja do frio da água de lá [Antártida]. Com menos filhotes, a temporada é mais curta”, explica Milton Marcondes.

Os encalhes também chamam atenção neste ano. Normalmente, a maior parte desses casos envolve filhotes, que dependem da mãe para alimentação e proteção. Quando se separam dela, podem morrer de fome ou ser atacados por predadores, além de terem o sistema imunológico menos desenvolvido.

Com poucos filhotes, os juvenis passaram a se destacar entre os animais mais vulneráveis. Marcondes explica que, embora um adulto consiga buscar alimento e ainda tenha reserva de gordura, os jovens têm menor capacidade de estocagem e menos experiência.

Outro ponto atípico é a concentração dos registros. Como as baleias juvenis ainda não estão prontas para acasalar, elas costumam interromper a viagem nos estados mais ao sul. Por isso, Santa Catarina e São Paulo lideram os registros de encalhe neste ano, em vez da distribuição mais comum, com maior quantidade no Espírito Santo e na Bahia.

Até agora, foram 59 encalhes, contra 78 no ano passado. O instituto já correlacionou baixa disponibilidade de krill na Antártida com picos registrados em 2010, 2017 e 2018. O recorde foi em 2021, quando 230 animais morreram na costa brasileira, em um ano também marcado por poucos filhotes. Naquele período, porém, a pandemia impediu coletas para medir a oferta de krill.

“Este ano, nós não tivemos pico de encalhe. Pelo contrário, os números são relativamente baixos. Mas nós estamos tendo mais casos envolvendo juvenis no Sul. Se continuar o problema com disponibilidade de krill, pode ser que no ano que vem a gente tenha uma mortalidade atípica, porque geralmente é cumulativo”, alerta Marcondes.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil — arquivo (19/08/2026)

Fonte: Agência Brasil